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“Tratam-nos como se fossemos o inimigo…”

Este texto é uma pequena homenagem ao Senhor que me disse esta frase, que morreu no dia de 19 de Março, há 3 dias. Que sirva para que mais ninguém que viva em Lares seja tratado como o inimigo…

Homem-infeliz
Fotografia por Tim Doerfler no Unsplash

Trabalhei 18 anos num Lar de Idosos, como Técnica Superior de Reabilitação, responsável pelas sessões de Gerontomotricidade. Foi com esta experiência que me apaixonei por esta área de intervenção e pela população mais velha.

Infelizmente, foi também, com esta experiência, que me questionei diariamente sobre a forma como as Ajudantes de Ação Direta tratavam as Pessoas mais velhas…

Será que estas profissionais se esqueciam que considerando a fragilidade daquelas pessoas, era errada a forma como os tratavam? A postura de superioridade, de poder sobre os Pessoas mais velhas… Muitos ficavam totalmente dependentes destas profissionais, fosse para ir à casa de banho, fosse para lhes trazerem algo do quarto que tinha ficado esquecido…

O sentimento de incapacidade para mudar esta situação (naquele caso específico) acompanhava-me, lado a lado com a certeza que a forma de cuidar das Pessoas mais velhas tinha de mudar urgentemente.

Certo dia ouvi esta frase “tratam-nos como se fossemos o inimigo…” dita por um senhor de 90 anos. Esta frase dita por aquele senhor, tocou-me profundamente e tentei imaginar-me na sua pele…. Os sentimentos de tristeza, angústia, abandono, desprezo e revolta invadiram-me.

Como é possível?! 

Na minha cabeça só surgia um pensamento, a ideia que o inimigo é o alvo a abater, acabar com ele, exterminá-lo… como pode uma Pessoa mais velha sentir isto na sua própria casa? Sentia certamente que só estava ali para dar trabalho, para chatear e aborrecer as ditas profissionais… é muito triste.

Quero realçar que tenho toda a consideração por esta classe profissional, que conheci durante estes 18 anos, algumas excelentes profissionais, que gostavam do que faziam e tratavam as Pessoas mais velhas com todo o respeito, carinho e atenção, como merecem ser tratadas.

O que acontece em alguns Lares de Idosos, é essencialmente a falta de acompanhamento das Direções Técnicas, das responsáveis e/ou Encarregadas e acima de tudo a falta de formação profissional e de momentos de partilha e discussão de casos e situações específicas. 

É muito importante que estas profissionais sejam ouvidas e acompanhadas nos seus desafios diários, este é um trabalho muito exigente.

Não nos podemos esquecer que as Pessoas mais velhas, mesmo em situações de saúde fragilizadas, como no caso das demências, têm um passado, foram filhas, mães, avós, esposas, profissionais, no fundo pessoas como qualquer um de nós, que um dia, quando chegarmos a uma idade mais avançada, também quer ser bem cuidado e respeitado como pessoa.

22/03/2021, Ana Pico