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Os meus Avós

2021-06 - Lulu e os Maiores - Os meus Avos
Fotografia de Ana Pico

As saudades que eu tenho dos meus Avós… só não me lembro do meu Avô paterno, mas recordo com todo o carinho os outros… todos diferentes, e igualmente carinhosos e atenciosos, nunca tive qualquer dúvida do amor que tinham por mim.

A primeira que perdi, foi a Avó paterna, tinha 11 anos quando ela partiu, tinha um cancro. Era muito nova e não acompanhei a sua doença, todos os domingos ia a sua casa, era “uma senhora”, estava sempre sentada atrás de uma grande mesa com o tampo em vidro, tinha-lhe todo o respeito.

Quando chegávamos íamos dar-lhe um beijinho, eu e o meu irmão, e ela ficava longos minutos a olhar para a nossa cara, segurando-nos o queixo, de uma forma muito ternurenta, não sei o que ela pensaria, mas sei que sentia muito carinho da sua parte apesar de manter sempre uma certa distância.

Os meus Avós maternos, estiveram sempre muito mais presentes, acompanharam-me até à minha idade adulta. Infelizmente, pela perda da minha mãe muito cedo, sendo ela a sua única filha, eu e o meu irmão tivemos que acompanhar a fase mais complicada das suas vidas, a fase final das suas vidas.

É doloroso ver a perda das capacidades de alguém que amamos e que conhecemos toda a vida como alguém capaz de cuidar de si.

Partilho aqui a  procura de um acompanhamento digno, que tantas pessoas passam e sentem a mesma dificuldade que nós sentimos. Tomámos a dura opção de procurar um “lar de idosos”, esta busca é muito dura, muitas portas que se fecham, ou por falta de dinheiro ou por falta de vagas ou por não ser uma boa opção. Ainda tentámos, no caso da minha Avó, que fosse acompanhada em casa, mas apesar de ter uma boa reforma, não era suficiente para manter duas pessoas, de forma a poderem revezar-se… e pensar que uma dessas pessoas de um dia para o outro deixava de aparecer? E se não fosse uma pessoa séria? Poderíamos abrir a porta e confiar plenamente em alguém para cuidar da nossa Avó? Todas estas dúvidas nos levaram a procurar uma resposta mais adequada, um ”lar de Idosos”, algo que desconhecíamos totalmente.

A nossa prioridade, no caso da nossa Avó, era estar perto de nós, que pudéssemos ir visitá-la todos os dias, que nos facilitassem o acesso em termos de horários, uma vez que ambos trabalhávamos com horários fora da norma, que tivesse um quarto individual, e obviamente que fosse bem tratada com toda a dignidade que merecia.

A minha Avó sempre nos falou de uma amiga e colega mais velha, bióloga como ela, que foi visitar num lar, na Holanda, e que descrevia como um quarto com uma porta para um jardim, com muita luz onde tinha um cadeirão e uma escrivaninha onde podia ler e escrever, referindo que seria assim que gostaria de ter um dia quando fosse para um lar. 

2021-06-Lulu-e-os-Maiores-Os-meus-Avos_2
Fotografia de Zane Lee no Unsplash

Apesar de termos conseguido encontrar um lar perto de casa, onde tinha o seu quarto individual, onde podíamos ir visitá-la fora da hora de visitas, não conseguimos o quarto com porta para o jardim… nem com muita luz…

Pela sua condição de saúde, início de demência, começou a ser difícil ler e escrever e faltou o poder estar no seu quarto sozinha, com as suas coisas, como tanto gostava e tinha idealizado, saliento que esta é uma regra comum nos lares, por questões de segurança, não salvaguardando a vontade e direito das pessoas, infelizmente.

A imagem que guardo dessas visitas, é uma sala, com cadeirões encostados uns aos outros, com pessoas mais velhas sedentas de conversa e visitas que não recebiam, ou eram escassas, e quando chegávamos éramos literalmente “sugados” pelas vizinhas de cadeirão, deixando a minha Avó muito triste chegando a ser dura e desagradável para essas senhoras.

Pergunto a todos os diretores técnicos dos lares, porque não ser uma prioridade, respeitar a vontade da pessoa mais velha? Na minha opinião é  obrigatório conhecer os interesses de cada pessoa e fazer todo o possível para ir ao seu encontro, de forma a que as pessoas mais velhas continuem a ter vontade de viver. 

Não tenho dúvida nenhuma que ir viver para aquele lar, apesar de trabalharem no sentido de darem o seu melhor, acelerou o processo de depressão e contribuiu para a vontade de desistir de viver da minha Avó, por deixar de ter interesses pessoais.

Imaginem alguém que gostava de estar sozinha a ouvir música clássica, ler a revista “National Geographic”, ver os canais  História, Odisseia, Mezzo, ler livros e escrever as suas notas e memórias, estar numa sala com pessoas a menos de um metro de si, que não conseguiam ter uma conversa que a interessasse, com a televisão ligada todo o dia, nos programas da manhã e da tarde, sendo tratada pelas funcionárias de uma forma, por vezes infantil.

Lembro-me da sua expressão furiosa, quando falavam com ela, como se fosse uma criança… É muito triste…. E é esta a realidade em muitos dos lares do nosso país! 

No caso do meu Avô foi idêntico, no sentido de não termos encontrado e não termos capacidade financeira para o colocarmos num lar onde os seus interesses e características fossem considerados, apesar da sua demência e de ter sido cuidado, pensamos nós, com carinho. 

É urgente perceber que dar comida, banho, roupa lavada e uma cama e algumas atividades de animação, que na maior parte das vezes infantilizam as pessoas mais velhas, não é suficiente para cuidar de uma pessoa idosa! 

A mudança é URGENTE!  Tratar de forma digna e diferenciada cada pessoa.

Ana Pico

Cooperadora fundadora da Lulu e os Maiores, CRL

Técnica Superior de Reabilitação e Formadora

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Por Ana Pico

Técnica Superior de Reabilitação e Formadora
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