Categorias
autocuidado comunidade cuidadores cuidadores familiares cuidadores profissionais

Testemunho de uma Pessoa que cuida da Mãe

Transcrevemos integralmente o testemunho de uma Pessoa que cuida da Mãe e que temos o prazer de ter na nossa Comunidade. Agradecemos muito à Helena Mota a partilha da sua experiência enquanto cuidadora da sua Mãe…

2021-09 - Lulu e os Maiores - Cuidar Mão no ombro
Fotografia de Rawpixel no Freepik

As coisas por aqui não têm sido fáceis. A ponto de uma das minhas filhas me propor levar a avó a passar um mês “de férias “ num lar.

Para eu descansar, namorar e, sobretudo, diz ela, ter tempo para organizar a cabeça e o coração. Precisamente por notar, mesmo à distância de uma vídeo chamada, que me estou, literalmente, a perder. 

Sei que sim, tenho disso plena consciência; mas nada consigo fazer que não seja olhar por ela, minha Mãe, minuto após minuto, no pavor de que caia ou involuntariamente se magoe.

Porque ela de nada, de nenhum perigo tem consciência. Em três meses tivemos quatro entradas nas urgências, com lesões entre equimoses, mão e ombro fracturado, e uma quinta com uma costela partida.

Destas duas últimas, sofridas de noite, no quarto, não tem qualquer memória nem sabe onde ou como caiu.

Dois anos seguidos de protecção e presença constante, 24/24h, começam já a sufocá-la, e tal reflecte-se quando a ajudo no banho, a vestir-se ou a compor-se no quarto banho, sobretudo quando a inibo de fazer o que de antemão sei que redunda em perigo.

Já não consegue ouvir a minha voz e rejeita-me .

Por revolta à tomada de consciência de que está incapaz para desenvolver tal acção.

E eu…?

Em mim o desgaste acumula-se e vai, paulatinamente, ganhando terreno. Com todas as minhas forças tento serenar, neste sobe e desce que é a montanha russa em que a nossa vida se tornou, mas nem sempre sou bem sucedida.

Se cumpro com ela — embora conte com a sua constante rejeição — estou a falhar com o marido, o trabalho, a casa, todo o resto da família.

E o resultado é sentir-me mal, desgostosa comigo própria, pela incapacidade de fazer face ao desafio.

Tanto clamei pelo desejo de ter os pais comigo, para poder finalmente fruir da sua companhia, alegria, boa disposição, … e quando os recebo, ele vem comatoso e sobrevive dois dias, e ela entra na roda viva da memória flutuante. Num vórtice tal que, dois anos passados, à porta dos 90, se vê menina de 12, e me assume, creio, como uma das irmãs.

Passa o dia num motu-contínuo, massacrante, qual criança que não desiste do chocolate e, pela insistência, o conquista.

Só que ela pede para falar com os pais;  para os avisar que está “nesta casa, com esta gente“; e está na hora de os irmãos a virem buscar para poder ir para casa dos pais; e está na hora de ir dar o jantar aos pais.

Descobertas…

Descobri agora que:

  • quem inventou a privação de sono como tortura sabia o que fazia;
  • os momentos das pequenas vitórias e da alegria das conquistas alcançadas são tão efémeros que raramente os consigo saborear, muito menos ter tempo de com ela os festejar, em tentativa de ajuda à tomada de consciência e reforço de auto-estima;
  • os sorrisos, os mimos e os carinhos nada podem perante perguntas do tipo “mas por onde anda o Papá? Tão tarde e ainda não chegou?“; “ porque não me levas para minha casa?”
  • sou uma “cuidadora” quando, na penumbra da lâmpada de presença, ao mínimo movimento, me viro para lhe destapar a cabeça, soterrada debaixo das cobertas;
  • livros , histórias , filmes, mais que penosos, são uma violência para quem tem um tempo médio de atenção mínimo;
  • actividades estimuladoras de memória lhe são penosas e frustrantes. Porque são a prova de quão desmemoriada está. 

Cuidar de mim?

Tempo para mim? Cuidar-me? Claro que sim, sem dúvida. Mas é uma gestão que verifico ser incapaz de fazer.

Depois de estar três dias seguidos sem conseguir tomar banho ou duas semanas sem conseguir lavar a cabeça, passei a fazê-lo graças à falácia de que tem de estar de olhos fechados, com as gotas, a fazer “o tratamento “. 

Se estou mais que cinco minutos fora do raio de visão, tenho-a perdida, sem referências, em crise que, se não for atalhada na hora, evolui muito negativamente, em crescendo.

E toma repercussões inauditas de que a acusação “foste-te embora e deixaste-me aqui sozinha!” é o mal menor.

NÃO creio, cara Filipa, que este meu exame de consciência possa ajudar quem quer que seja. Já me sinto de pensamento embotado, incapaz de dar pinceladas de cor-de-rosa à minha narrativa sombria. 

Felicito-as pela exemplar força e pela criação dessa roda-de-amor em que nos sentimos abraçadas (na Comunidade). 

Verão de 2021, Helena Mota


Desejamos, e sei que a Helena também, que este testemunho de uma Pessoa que cuida da Mãe seja útil para outras Pessoas que cuidam.

Terminamos relembrando que é esse o nosso propósito, estar cá para quem cuida e apoiar as Pessoas que cuidam, seja através da formação e/ou do apoio da nossa Comunidade. E se não for connosco, não faz mal nenhum, mas por favor, procure um grupo onde se possa integrar e sentir que há outras pessoas que compreendem o que está a passar…

Cuidando de si, cuida melhor. Vamos cuidar melhor dos nossos Maiores! 🧡

Partilhar:

Por Filipa Pico

Fundadora da Lulu e os Maiores porque tive uma parte do papel de cuidar da Lulu…
A frequentar pós-graduação em “Expert Practice in Delivering Person Centred Dementia Care” (University of Worcester), com pós-graduação em “Gestão de equipamentos e serviços destinados a pessoas idosas” (ESSCVP).
Formadora de cuidadores profissionais e familiares de pessoas mais velhas (certificada pelo Instituto de Emprego e Formação Profissional – IEFP).