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A força da culpabilidade

A Doença não chegou sozinha no seio da nossa família, com ela veio a culpabilidade.

Quando os médicos deram o diagnóstico à minha mãe, Mimi, não me apercebi muito bem do impacto que esta doença ia ter na vida da minha mãe, nem na minha…

2021-10 - Lulu e os Maiores - Nathalie e Mimi
Fotografia da Nathalie com a Mimi

A culpabilidade começou mesmo aí quando o psicólogo afirmou que a minha saída de casa foi o ponto de partida dum transtorno emocional para ela.

No início, os sintomas correspondiam a uma depressão (esquecimentos frequentes, mudança de humor, falta de orientação, isolamento).  Mas eu sabia que era mais do que isso… sempre tivemos una conexão muito forte e conhecemos-nos muito bem, conseguimos ler “uma na outra”.

E assim foi afastando-se das suas amigas, inventando histórias e confusões, e foi falando cada vez menos, e fazia sempre as mesmas perguntas e quando ia às compras comprava sempre as mesmas coisas.

Uma vez que ela estava “obcecada” com o regresso para Portugal, os meus pais decidiram mudar-se, na esperança de que a minha mãe fosse encontrar algum conforto estando perto dos seus irmãos e estando na aldeia onde nasceu e cresceu.

Não sabíamos que a doença ia evoluir tão depressa!

Quando comecei a cuidar…

Em 2017 mudei-me para apoiar os meus pais pois já notava as consequências no meu pai, que estava no limite de um esgotamento, e antes de ter de cuidar dos dois, optei por prevenir e vim para junto deles.

Poucos meses depois de eu chegar, começou a usar cueca fralda e em finais de 2018 deixou de andar sozinha e comprámos uma cadeira de rodas.

Cada dia que passava, tentava perceber o que podia melhorar para ajudá-la a sentir-se melhor e manter estável a evolução da doença. Mesmo assim, não conseguia deixar de me sentir culpada por muito que fazia. 

O meu dia a dia, além de repetitivo e monótono é desgastante fisicamente e mentalmente.

Todos os dias são iguais e o peso da responsabilidade pela felicidade da Mimi estava cada vez maior.

Sempre me impus metas muito elevadas enquanto cuidadora, sendo sempre cada vez mais exigente comigo. Até recentemente sentia-me presa pela doença de “Alzheimer”, não via nenhuma saída nem alternativa, estava perto de atingir os meus limites.

Não conseguia olhar para mim e ainda menos para dentro de mim.

Algo novo…

No entanto, o trabalho feito durante as sessões da Lulu e os Maiores ajudaram-me a autorizar-me autocuidados tal como tirar mais tempo para mim, e permitir-me tratar do meu bem-estar, porque se não cuido bem de mim não posso ser uma boa cuidadora.

Hoje já aceitei a realidade e consigo relaxar e meditar. Apesar de não me reconhecer, estar dependente e sem autonomia continua a ser a minha mãe, a pessoa que me criou e acarinhou.

A Filipa estendeu-me a mão que sempre precisei para compreender quem sou eu como pessoa, quais as minhas qualidades enquanto pessoa, o que posso melhorar no cuidado da minha mãe e no meu auto-cuidado.

Logrei transformar essa culpa numa força que me puxa para a frente e que me dá orgulho porque sou lutadora e corajosa tal como a Mimi era, e é.

Nathalie Senabra

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Por Nathalie Senabra

A Nathalie é cuidadora da sua mãe, Mimi.
Mudou-se para Portugal (Monção) no início de 2017, pois vivia em França onde nasceu e foi criada. É voluntaria na proteção animal há mais de 10 anos. "Os animais sempre me apoiaram imenso quando mais precisava. Eles têm sem dúvida um poder apaziguante."
“Adoro a pastelaria francesa e passar horas na cozinha a fazer doces. Sou genuína, atenciosa mas também muito teimosa. Acredito na energia do universo e tento fazer o bem a minha volta.”