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Um lugar que me conheça

Um fumador, um caminheiro, um fã de uma banda de música, um columbófilo, saberão dizer em que ponto um prazer passa a vício? Em que fase uma atração passa a necessidade? Em que estágio uma curiosidade passa a satisfação?

Como uma mulher igual a todas as da minha condição e geografia, com família, filhos e amigos, numa comunidade e num trabalho regular, o adjetivo serve para os dois, não tenho tais respostas, nem tempo para as procurar junto dos tipos de pessoas enumerados ou de outros tipos. Tenho, sim, vontade de dizer que sei de algo que vicia, é necessário e satisfaz. A poesia.

2021-10-31 - Lulu e os Maiores - Poesia
Fotografia de Alice Hampson on Unsplash

Acontece julgarem-na inalcançável, circunscrita, produzida e destinada a círculos exclusivos. Também eu me achava indigna de ler, de entender ou de sentir fosse o que fosse vindo da poesia.

Os escritores de prosa levaram-me pela mão até à poesia. E agora, ainda com pouquíssimos versos absorvidos, e pouquíssimo tempo entre autores de poesia, declaro-a tão comum, presente e acessível como o pão, o futebol ou a lavandaria da esquina.

Recentemente, numa reunião formal ofereceram-me dois livros de poesia, reedições de obras de José Régio. Dias depois, no cinema, no último filme do mais conhecido agente secreto ao serviço de sabida majestade, essa mesma personagem morre, numa explosão à altura do seu charme e da sua fama, e num brinde feito à sua alma pelos seus colegas de enredo, um deles lê um poema, cujo autor desconheço até ao momento, mas cuja beleza, do texto e da cena, não olvidarei. A seguir, no ecrã do televisor da minha casa, uma ministra portuguesa recita José Mário Branco em plena sessão parlamentar. A adequabilidade da ação ou o seu contexto são irrelevantes, importa somente que a poesia teve uma voz que a disse.

Três situações em que me vi cercada de poesia. Como qualquer um se pode ver.

A poesia está no meio de nós. É universal, até grátis. E não esquecer mágica. E mais mágicos são os versos em que os poetas a tentam definir.

Vinicius de Moraes, no seu poema O operário em construção, dá a entender que poesia é começar a dizer não e aprender a notar coisas a que antes não se dava atenção.

Dedico a todos cuidadores o “aprender a notar coisas a que antes não se dava atenção”. Convido-os a procurarem a poesia.

Muitos cuidadores estão com pessoas maiores de idade. Muitos poetas versejam sobre o avançar dos anos e os contornos dessa caminhada. Num deles, o cuidador terá espelhada a pessoa de quem cuida. É uma sequência natural da literatura, a identificação com o nosso ser, com o nosso mundo, de que a poesia não é exceção. Muito pelo contrário.
Quando nos revemos no que um poeta escreveu aqueles versos foram escritos para nós.

Procurem o vosso poeta ou poetas, os vossos versos. Neles haverá conforto, consolo, compreensão, esclarecimento.

(…)
Antes,
eu buscava
conhecer um lugar.

Agora,
apenas quero
um lugar
que me conheça.

Estas palavras são de Mia Couto, do poema O piso e o passo, e foram elas que me disseram porque é que a minha mãe, de 78 anos, doente, dependente, frágil, não se quer mudar para a minha casa.

Antonieta Félix

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Por Antonieta Félix

Acredita que os duendes do fim do arco-íris não guardam um pote de ouro e sim um pote de mel e até lhe provarem o contrário, quer ler, escrever, ouvir e contar estórias.
Alentejana de todos os costados, na infância quis ser cabeleireira, na adolescência jornalista, na juventude optou por uma licenciatura em Relações Internacionais. Trabalhou e deu aulas a adultos, em Lisboa, até o Alentejo a chamar de volta. Regressou e tornou-se correspondente do jornal Público.
Participou num projeto de promoção do livro e da leitura de uma autarquia, em que, entretanto, ingressou. Procura, desde então, novos caminhos na leitura, na escrita e nas estórias.
Certo dia, aceitou um convite para contar em público algumas estórias suas, o que fez o mundo girar na rotação inversa.
Antes e depois desse dia, colaborou com jornais e revistas e publicou contos avulsos. Depois disso, e por causa disso, publicou seis livros infantis e atreveu-se a contar mais estórias, suas, de outros autores e de outras eras.
Recentemente, escreveu sobre música no jornal “Diário do Alentejo”, em 2017 e 2018; foi voluntária, como contadora de estórias, numa associação de apoio a vítimas de violência doméstica, em 2019; fez a pós-graduação “A Arte de Contar Estórias” e criou o grupo de mulheres contadoras de estórias “As Rodelas”, em 2021.
Para o futuro, tem como previsão única o aparecimento ocasional do arco-íris…