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Textos que eu li…

“Textos que eu li” e ouvi selecionados por Beatriz Afonso.

Quando vier a Primavera

“Alberto Caeiro é o Mestre dos heterónimos pessoanos e do próprio Fernando Pessoa. Poeta bucólico, “de espécie complicada”, Caeiro dizia que “o verso nunca se emenda”. Recordamos o autor de “O Guardador de Rebanhos” com este poema “Quando vier a Primavera”, dito pelo ator Pedro Lamares.” (RTP)

Quando vier a primavera de Alberto Caeiro (RTP)
Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

Alberto Caeiro in Poemas inconjuntos
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… não quero é morrer sozinha

“Não me interessa saber do que vou morrer, não quero é morrer sozinha!”

Nesta conversa telefónica, uma pessoa mais velha partilhou comigo o que pensa e sente sobre a forma como a tratam, desde que a pandemia (covid-19) chegou a Portugal. Transcrevo algumas das frases que me disse e que apesar de não me surpreenderam gostava de partilhar convosco, para que todos refletíssemos sobre o que estamos a fazer às pessoas que amamos…

Vêm visitar-me e não tiram as máscaras, não ouço nada do que dizem, para mim nem vale a pena…

Depois de quase 40 minutos de conversa sobre como está o mundo, à mistura com estórias do passado e outras “baralhadas” com estórias do presente, disse-me duas ou três vezes…

Fiquei muito feliz de teres ligado!

Eu não lhe disse, mas também me sentia feliz… e fiquei ainda mais feliz de o saber…

25/02/2021, Filipa Pico

Vamos cuidar melhor dos nossos Maiores! ❤︎

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Textos que eu li

“Textos que eu li” selecionados por Beatriz Afonso

Fotografia de Jorge Carvalho

Manhã de Inverno

Coroada de névoas, surge a aurora 
Por detrás das montanhas do oriente; 
Vê-se um resto de sono e de preguiça, 
Nos olhos da fantástica indolente. 
 
Névoas enchem de um lado e de outro os morros 
Tristes como sinceras sepulturas, 
Essas que têm por simples ornamento 
Puras capelas, lágrimas mais puras. 
 
A custo rompe o sol; a custo invade 
O espaço todo branco; e a luz brilhante 
Fulge através do espesso nevoeiro, 
Como através de um véu fulge o diamante. 
 
Vento frio, mas brando, agita as folhas 
Das laranjeiras úmidas da chuva; 
Erma de flores, curva a planta o colo, 
E o chão recebe o pranto da viúva. 
 
Gelo não cobre o dorso das montanhas, 
Nem enche as folhas trêmulas a neve; 
Galhardo moço, o inverno deste clima 
Na verde palma a sua história escreve. 
 
Pouco a pouco, dissipam-se no espaço 
As névoas da manhã; já pelos montes 
Vão subindo as que encheram todo o vale; 
Já se vão descobrindo os horizontes. 
 
Sobe de todo o pano; eis aparece 
Da natureza o esplêndido cenário; 
Tudo ali preparou co’os sábios olhos 
A suprema ciência do empresário. 
 
Canta a orquestra dos pássaros no mato 
A sinfonia alpestre, — a voz serena 
Acordo os ecos tímidos do vale; 
E a divina comédia invade a cena. 

Machado de Assis (1839 – 1908) in Falenas

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Hoje senti…

Fotografia por Glen Hodson no Unsplash

Hoje senti tristeza, uma tristeza e angústia profundas ao pensar em algumas pessoas mais velhas que eu conheço e em como se sentem sós…

Não gosto de pensar que estão sós e de algum modo abandonadas… Preocupo-me sobre como se sentirão, e imagino que um dia posso ser eu e como será triste, sentir-me assim…

Penso então nas pessoas mais velhas que não conheço, e que estão em suas casas, que vivem sozinhas, que são viúvas e não têm filhos, pessoas que já perderam a maioria dos amigos, porque já morreram. Como se sentirão estas pessoas, fechadas nas suas casas…?

Que posso eu fazer? Telefonar aos “meus” pois apesar de parecer pouco já é muito e quem recebe uma chamada gosta de saber e quando desliga o telefone sorri e pensa “afinal ela lembrou-se de mim…”

11/02/2021, Filipa Pico

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A morte de um Rei

O filme “A Morte de Luís XIV” passou há alguns dias na RTP. A forma como cuidam do Rei que teve um longo reinado e uma vida extraordinária e a forma como o próprio rei se comporta (pelo menos na estória contada no filme) dão uma ideia de como podem ser nossos os últimos dias de vida…

Post 2021-01-11 - Morte Luis XIV

Recomendo o filme, e cada um tirará as suas conclusões, mas todos morremos de alguma coisa, até mesmo um Rei, e tal como este Rei muitos de nós precisaremos de cuidados…

14/01/2021, Filipa Pico

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Textos que eu li

“Textos que eu li” selecionados por Beatriz Afonso

O Inverno

Velho, velho, velho
Chegou o Inverno.

Vem de sobretudo,
Vem de cachecol,

O chão onde passa
Parece um lençol.

Esqueceu as luvas
Perto do fogão:

Quando as procurou,
Roubara-as um cão.

Com medo do frio
Encosta-se a nós:

Dai-lhe café quente
Senão perde a voz.

Velho, velho, velho.
Chegou o Inverno.

Eugénio de Andrade (1923 – 2005) in Aquela nuvem e outras

Nota: Esta página foi originalmente publicada em 12/01/2020 e editada e alterada completamente em 16/01/2021.

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Chamaram um “reformado”

Admirei-me quando vi pela primeira vez este senhor na RTP1, fiquei mesmo surpreendida e agradada, por chamarem alguém que me parece uma pessoa mais velha e que imaginei que já estivesse “reformado”.

Post 2021-01-07 - Reformado_1
Infecciologista Silva Graça analisou números da pandemia no Telejornal (RTP1)

Segundo a Gazeta das CaldasAntónio Silva Graça é infecciologista … 66 anos, é caldense, fez carreira nos hospitais militares…”.

Até ao dia 31 de maio o “médico infecciologista António Silva Graça, comentou durante 49 dias os números diários da evolução da pandemia de Covid-19, em Portugal. Estes comentários foram preparados, sempre sem parar e em tempos difíceis, e chegam, para já pelo menos, ao fim” comunicou a RTP1.

É bom ver que há televisões que ainda valorizam e apreciam o conhecimento de quem já viveu mais e tem mais ano de experiência profissional também. Fico muitas vezes com a sensação, e posso estar enganada, que em geral escolhem as pessoas mais novas e não as mais velhas.

E por isso obrigada e parabéns à RTP1 por esta escolha!

07/01/2021, Filipa Pico

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A primeira

Publicação de textos que eu li

Nesta rubrica serão publicados textos que eu li e que têm a ver com viver e envelhecer, que me acompanham e inspiram.

Beatriz Afonso

Jorge Costa Carvalho_bicicleta
Fotografia de Jorge Costa Carvalho

Nota: Esta página foi originalmente publicada em 29/12/2020 e editada e alterada quase completamente em 16/01/2021.

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Quando me fala do seu funeral…

Post 2020-12-23 - Funeral
Fotografia por Anton Darius no Unsplash

Quando uma Pessoa mais velha me fala do seu funeral eu fico atenta e à escuta.

Por vezes dizem-me algo como “quando eu morrer quero ser cremada”, ou “já disse ao meu filho o que quero”.

Fico sempre com a sensação de que sou uma privilegiada e que esta pessoa – umas vezes da minha família (e que eu amo), outras são pessoas com quem e para quem trabalho (e que eu aprecio e respeito) – confia em mim.

Falar da minha morte é algo sério e importante para mim e eu aprecio tanto quando me ouvem dizer o que quero e não quero… Sinto-me ouvida e apreciada.

Como fazem quando uma pessoa mais velha vos fala do seu funeral?

23/12/2020, Filipa Pico

Vamos cuidar melhor dos nossos Maiores! ❤︎


(Maiores são Pessoas mais velhas, Seniores, Pessoas idosas, Idosos…)

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Pessoas mais velhas são as mais afetadas…

Segundo um estudo da Universidade de Coimbra as pessoas mais velhas e com menor qualidade de vida são as mais afetadas pela atual pandemia (covid-19).

Isto preocupa-me e reflete um pouco do que se passa em toda a sociedade portuguesa (e não só?), pois quem antes da pandemia, já estava numa situação pior e de maior fragilidade está agora ainda pior… É só a mim ou mais alguém se preocupa com o mesmo?

E sendo assim pergunto-me – o que posso eu fazer, no meu dia-a-dia para contribuir? Eu vou fazendo o melhor que sei e posso, cuidando dos meus, mas será suficiente? É sempre frustrante sentir que podia fazer mais… apesar de já fazer o meu melhor.

17/12/2020, Filipa Pico